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sábado, 28 de janeiro de 2012

Trânsito mata mais e não apenas por acidentes

Congestionamentos provocam doenças e soluções exigem medidas mais firmes
Opinião é de especialistas em saúde que dizem que trânsito contribui mais para o efeito estufa do que ao acúmulo de lixo, como as sacolinhas de mercado
ADAMO BAZANI – CBN

Não é frase de efeito ou campanha de ecologistas: o trânsito cada vez maior está deixando as pessoas mais doentes.
Paulo Saldiva, que médico e professor da USP – Universidade de São Paulo, diz que doenças como enfarte do miocárdio, câncer do pulmão, asma, sinusite, conjuntivite e tantas outras têm na poluição emitida pelo excesso de carros uma das principais causas.
De acordo com ele, que acompanha os efeitos da poluição desde anos de 1980, neste período, a tecnologia dos motores dos veículos fez com que o nível de poluição individual caísse. Mas o aumento desenfreado no número de carros e motos já superou esse ganho com a melhoria de tecnologia. Segundo Saldiva, a situação é tão crítica nas cidades, que por mais que haja outros avanços tecnológicos, eles nunca serão suficientes para cobrir a quantidade de carros, se a política de prioridade ao transporte individual continuar.
Saldiva alerta que a situação não deve ser encarada de qualquer maneira. Segundo seus estudos, 7 mil pessoas morrem por ano na Capital Paulista unicamente por causa da poluição gerada no trânsito.
Enquanto a sociedade, principalmente em São Paulo, se vê às voltas sobre a discussão do não fornecimento por parte dos supermercados das sacolinhas plásticas, a poluição emitida pelos carros causa mais Efeito Estufa, aquecimento global, que o acúmulo de lixo, como explicou Estanistau Maria, coordenador do Instituto Akatu, uma Organização Não Governamental, em prol do Consumo Consciente.
Paulo Saldiva, disse que não há tempo de ficar esperando por soluções de longo prazo. Enquanto se tomam medidas mais demoradas, são necessárias ações urgentes.
Para ele, é necessário que o poder público tenha coragem e tome medidas restritivas ao uso do carro e invista em soluções rápidas para o transporte público.
Uma dessas soluções é a construção de corredores de ônibus.
Em dois anos e meio, um corredor de ônibus do tipo BRT, Bus Rapid Transit, pode ser concluído.
O BRT oferece espaço exclusivo aos ônibus que podem ser de maior porte, substituindo ônibus convencionais, e dezenas de carros de uma só vez, além de tornarem as viagens mais rápidas, pelo fato de os ônibus não ficarem presos nos congestionamentos. Com maior velocidade, menos ônibus conseguem fazer mais viagens e o desempenho dos veículos é melhor, o que possibilita também redução na poluição.
Exemplos o País tem. Em Curitiba e região Metropolitana, que tem uma ampla rede de corredores de ônibus, segundo a prefeitura da capital paranaense, só a colocação de 575 ônibus novos em circulação como parte da renovação da frota do sistema no ano passado, possibilitou a redução da emissão de 100 toneladas por mês de diversos tipos de poluentes, principalmente materiais particulados, enxofre e óxido de nitrogênio, substâncias altamente cancerígenas.
Os novos ônibus de Curitiba são movidos a diesel S 50, alguns possuem uma mistura de biodiesel e outros, como os Ligeirões (biarticualdos novos) são movidos com 100% de biocombustível.
Quando os corredores de ônibus adotam tecnologia limpa, os ganhos ambientais, em outras palavras, para a saúde do ser humano, plantas e animais, são bem maiores.
É o que ocorre com o Corredor ABD, que liga São Mateus, na Zona Leste da Capital Paulista, ao bairro do Jabaquara, na zona Sul de São Paulo, passando pelos municípios de Santo André, Mauá (Terminal Sônia Maria), São Bernardo do Campo e Diadema.
Boa parte dos veículos, operada pela empresa Metra, é bem menos poluente que os ônibus convencionais. Há modelos a etanol, elétricos-híbridos e trólebus, estes últimos que são movidos totalmente a energia elétrica e não emitem nenhum tipo de poluente em sua operação.
Para aumentar ainda os benefícios ambientais, a Metra é responsável desde 2008 pela iniciativa do Corredor Verde, que consiste no plantio e cuidado de mais de 4 mil árvores ao longo das vias operadas pela empresa.
As árvores captam o gás carbônico lançado pelos ônibus convencionais que trafegam pelo corredor e também dos outros veículos que andam ao lado das pistas exclusivas, e liberam oxigênio.
Tanto no sistema de Curitiba como no Corredor ABD, também há preocupação em relação a reciclagem.
A Metra envia para reciclagem os passes de papel com tarja magnética, os materiais resultantes da poda das plantas do Corredor Verde e separa na garagem tudo o que pode ser reciclado. Em Curitiba e região metropolitana, empresas como a Leblon Transporte, também destinam corretamente os materiais que podem ser reciclados. No caso da Leblon, a empresa mantém uma parceria com a Associação de Catadores do Município de Fazenda Rio Grande, que retira estes profissionais das ruas e possibilita oportunidade de geração de emprego e renda numa unidade de separação de lixo reciclável, onde plástico, alumínio, papel, vidro e outros materiais são vendidos a empresas que os reaproveitam. A renda é revertida para a comunidade.
São exemplos que mostram que a situação da qualidade de vida das cidades é preocupante, mas que as soluções são muitas vezes mais simples e baratas que muitos pensam.
A empresa Perkons, especializada em segurança e gestão integrada de trânsito, conversou também com Paulo Saldiva e outros profissionais de meio ambiente e tráfego, que trazem dados interessantes para reflexão e ação. Acompanhe o artigo:

Os congestionamentos causados por medidas econômicas enraizadas no culto ao transporte individual matam – é o que garantem especialistas em saúde e meio ambiente.
Câncer de pulmão, enfarte do miocárdio, crises agudas de asma e conjuntivite são algumas das doenças adquiridas por quem fica muito tempo no trânsito. A constatação faz parte do estudo de Paulo Saldiva, médico e professor da Universidade de São Paulo (USP), que também dá conta de que sete mil pessoas morrem de complicações ocasionadas pela poluição do tráfego, por ano, na capital paulista.
“Os estudos de condições climáticas acontecem na USP desde os anos 80. Só que, com aevolução da cidade, os níveis de especificação da poluição também se elevaram nos apresentando uma nova fonte de poluição: o trânsito”, explica.
Saldiva alerta para as doenças silenciosas trazidas pelos congestionamentos e lastima que os usuários do transporte individual percam quatro horas do seu dia no trânsito, ainda que reconheça que as alternativas de transporte não são tão bem vindas. “Eu uso bicicleta, mas o problema é que a cidade não é amigável para essa e outras formas de transporte”, denuncia.

Saldiva falou, também, dos prejuízos causados pelo inchaço na frota de transportes individuais e problemas na oferta de transporte coletivo. “O índice de poluição vem caindo, mas não podemos nos enganar. O veículo de hoje emite muito menos poluentes”, afirma, mas acrescenta que “o problema é que a tecnologia está chegando ao limite e a condição de mobilidade é muito ruim. Em São Paulo, essa melhora deixou de ser eficiente já em 2005. Nós apostávamos na tecnologia como solução, mas é só analisarmos um carro que existia em 1980 e continua existindo hoje, como o Gol”.
A opinião de Saldiva é compartilhada pelo especialista em trânsito e diretor da Perkons, José Mario de Andrade. “Não há mais tempo para discutir, é preciso agir e lançar mão de medidas restritivas como uma alternativa. É ilusão imaginar que a maioria vá abrir mão do seu carro por um bem maior sem nenhum tipo de estímulo. Porém, só a tecnologia não dá conta. Ao mesmo tempo, é preciso boa vontade dos governos com relação ao investimento em transportes coletivos de qualidade. Inclusive essas medidas restritivas, que oneram o transporte individual, precisam ser revertidas no coletivo”, diz Andrade.
Trânsito, meio ambiente e saúde
São Paulo tem 7 milhões de carros, com 11 milhões de habitantes. Os dados e o exemplo da capital paulistana são utilizados por Estanislau Maria, coordenador de conteúdo do Instituto Akatu, que trabalha em projetos voltados ao consumo consciente, para explicar que “nas metrópoles, o principal gerador de gases de Efeito Estufa é o trânsito e, depois, o lixo.”
Estanislau afirma que é preciso voltar no tempo para compreender a cultura do carro no país. “Desde os anos 50, o brasileiro prioriza o transporte motorizado e individual. Sucateamos nossas ferrovias e não temos navegação de cabotagem no Brasil. Ou seja, usamos estradas, ao invés de explorar o potencial pluvial”, analisa.
Para o médico Paulo Saldiva será preciso mais que educação para reverter essa cultura. “O que vai funcionar para o trânsito é o caos, e não só as campanhas educativas. Eu vejo muito mais motoristas mudando o comportamento depois de passarem pela UTI. Sinceramente, o único programa de reciclagem que funciona em São Paulo é o de transplante de órgãos”, diz.
No contexto mais amplo dessa fotografia está a relação entre meio ambiente e saúde. É evidente a queda da qualidade de vida nos centros urbanos, a poluição do ar, os níveis de tensão aumentando a pressão arterial, entre outros sintomas. Mas essas paisagens quase imperceptíveis ficam mais claras quando é constatado que o trânsito, hoje, é a segunda maior fonte de poluição do meio ambiente brasileiro, só ficando atrás do desmatamento da Amazônia.
Sobre a opção pelo uso do carro ou moto, Estanislau explica que a população já sofre as consequências dessa escolha. “Já estamos sofrendo as consequências. Invernos e verões cada vez mais rigorosos, o que influencia a produção dos alimentos, e assim por diante. É o conceito de interdependência: cada carro que entra em circulação gera o impacto no cenário amplo”, explica.
SP é o maior estacionamento a céu aberto da América Latina
A interdependência, segundo Estanislau, vai muito além dos problemas visíveis. O especialista diz que o aquecimento da economia e o estímulo do governo na compra de carros populares têm uma grande parcela de responsabilidade na questão. “Quem planeja comprar um carro não quer ouvir argumentação sobre os impactos ao meio ambiente. ‘Quer dizer que agora que chegou a minha vez e vocês estão dizendo que eu não posso comprar carro?! É, de fato ilógico”, afirma. “A situação fica mais crítica quando analisamos os dados da FGV de que o governo incluiu 3,6 milhões de pessoas na classe C entre 2010 e 2011”, esclarece.
Quando questionado sobre o resultado desta equação, Estanislau é categórico. “Vamos ficar parados no meio das ruas, se não investirmos em transporte público. Mas isso depende de política pública. Não há alternativa. Todas as medidas de sustentabilidade não são apenas morais. Perdemos vidas, tempo e produção, além da disputa do espaço público. Quanto mais carros, maior a demanda da construção das vias, que gera o caos urbano. É tudo um grande bumerangue”, finaliza
Texto Inicial: Adamo Bazani, jornalista da Rádio CBN, especializado em transportes.
Artigo: Comunicação Perkons.
Publicado em 29/01/2012 no Blogpontodeonibus.

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