Motorista Comprometido

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terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Um caminhão de dinheiro

Durante décadas, os caminhoneiros foram remunerados por seu trabalho de uma maneira artesanal, ineficiente e cara. A forma de pagamento eram as cartas-frete que foram proibidas pela Associação Nacional do Transporte Terrestre (ANTT) no dia 23 de janeiro. Essa proibição – um pleito antigo dos representantes da categoria – abre um mercado de R$ 90 bilhões para as administradoras de cartão de crédito e para o sistema financeiro como um todo. Era uma batalha do segmento que tentava formalizar cerca de 800 mil caminhoneiros e retirá-los de uma situação de subserviência às transportadoras e postos de combustível. A carta-frete é um papel assinado pela contratante – uma transportadora – que representa o adiantamento das despesas do frete e o pagamento do motorista.

Cabe ao autônomo conseguir trocar esse papel por dinheiro, combustível ou por outro produto que será necessário ao longo da viagem. O problema é que essa troca só pode ser realizada em um posto que aceite a permuta – cobrando uma taxa de desconto elevada na maior parte das vezes. Esse sistema não só era ineficiente como também injusto. “O caminhoneiro só poderia abastecer em determinados locais, não podia procurar os melhores preços e tinha de depender da boa vontade do posto para receber seu adiantamento”, diz Ricardo Miranda, presidente da Pamcary, empresa que oferece soluções e meios de pagamento em logística. Segundo a União Nacional dos Caminhoneiros do Brasil, o deságio para o troco em dinheiro poderia chegar a 30% do pagamento total.

Miranda faz um cálculo mais modesto e estima o deságio em 15%, ainda assim uma conta salgada para o motorista. “A carta-frete desmoralizava o caminhoneiro”, diz Miranda. Estudos jurídicos dos advogados Ives Gandra Martins e Modesto Carvalhosa, de São Paulo, indicavam que a carta-frete gerava uma situação de quase escravidão para os profissionais da estrada. A resolução da ANTT define que, a partir de agora, os autônomos deverão ser remunerados por meio de cartões pré-pagos ou pelo depósito na conta-corrente. O não cumprimento dessa medida sujeita a transportadora a uma multa equivalente a 100% do valor do frete, limitado a R$ 10.500. Com o fim da carta-frete as administradoras de cartão querem uma fatia desse bolo apetitoso. Visa, Mastercard e bandeiras menores já criaram seus produtos.

Diferentemente de outros cartões pré-pagos, os destinados aos caminhoneiros não têm um uso específico. Eles são aceitos em qualquer estabelecimento conveniado à bandeira do cartão e também podem ser usados para sacar dinheiro nos caixas automáticos dos bancos parceiros. O cartão pré-pago, em geral, é recarregado pela empresa contratante ao longo da viagem do caminhoneiro, à medida que o trajeto vai sendo registrado nos pedágios. Também é permitido ao motorista proporcionar um cartão adicional a um membro da família. “Isso facilita a vida da esposa do caminhoneiro, que tinha que esperar o retorno dele para poder ter dinheiro em casa”, afirma Rubén Osta, diretor-geral da Visa. A Visa espera conquistar a maior fatia desse mercado já no primeiro ano de atividade.

Rubén Osta, diretor-geral da Visa: "A inserção no mercado formal vai facillitar a vida do caminhoneiro e permitir-lhe o acesso ao crédito"

Para isso, fechou parceria com três das seis administradoras de meios de pagamento habilitadas pela ANTT para intermediar os contratos de trabalho: Repom, Pamcary e DBTrans. “A inclusão do caminhoneiro no sistema financeiro também permitirá que ele se interesse em usar nosso produto em hotéis, alimentação dentro e fora de casa, etc. É um universo de dinheiro difícil de mensurar hoje”, diz Osta. Outras bandeiras estão aquecendo seus motores para acelerar nesse mercado. A Mastercard fechou uma parceria com a Ticket e está em negociação com outras administradoras a serem credenciadas pela ANTT. “Apostamos no crescimento de pré-pago em todos os setores”, diz Alexandre Magnani, vice-presidente de novos negócios da Mastercard Cone Sul.

Segundo estimativa da empresa, o mercado de pré-pagos pode chegar a US$ 81 bilhões na América Latina em 2017. No ano passado, movimentou R$ 12 bilhões. No entanto, não são apenas as bandeiras do primeiro time que querem conquistar a simpatia e a adesão dos irmãos das estradas. A administradora de cartões independente Policard, de Minas Gerais, já contabiliza 100 transportadoras cadastradas e outros 300 contratos pendentes para começar a operar nos próximos meses. “Temos 50 mil estabelecimentos de todos os portes cadastrados em todo o País, desde grandes redes de supermercado até pequenas padarias”, diz Luciano Penha, vice-presidente da Policard. O motorista autônomo que utilizar o cartão da administradora poderá também sacar dinheiro nos estabelecimentos que aceitam a bandeira.

A empresa também está fechando parceria com um banco para ampliar a rede de saques, mas não adiantou qual. “Nossa meta para o primeiro ano de atividade é movimentar R$ 2 bilhões com esse cartão”, diz Penha. Os benefícios do fim da carta-frete não se limitam a ampliar o mercado para as administradoras de meios de pagamento eletrônicos. Segundo estimativas do setor, há 1,43 milhão de caminhoneiros cadastrados em atividade no Brasil, dos quais 56% ou 800 mil são autônomos. Essa estimativa deve ser vista com cautela. “Só saberemos com certeza o tamanho do mercado quando houver a formalização da atividade”, diz Noboru Ofugi, superintendente de serviços de transporte de cargas da ANTT. Isso permitirá a criação de outros benefícios. Além de inserir 500 mil novos consumidores no sistema financeiro, o fim da carta-frete vai permitir, em um futuro breve, o acesso ao crédito.

“Esses trabalhadores poderão financiar a compra de novos caminhões”, diz Osta, da Visa. A frota de autônomos tem em média 19,1 anos, segundo a ANTT. “Os projetos do governo para renovação de frota de caminhões brasileira até então não davam certo porque o autônomo não podia comprovar renda”, diz Miranda, da Pamcary. Com a regulamentação da atividade, será mais fácil a compra de caminhões por meio do programa Procaminhoneiro, que prevê juros de 4,5% ao ano e prazo de financiamento de até 96 meses. “Havia várias iniciativas para tentar formalizar esse mercado, mas apenas com a exigência da lei teremos controle efetivo de quem são os caminhoneiros e quanto eles movimentam para a economia do País”, afirma Ofugi.

Fonte: Isto É Dinheiro

Publicado em 06/02/2012 no site http://blogdocaminhoneiro.com

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