Motorista Comprometido

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segunda-feira, 26 de maio de 2014

Falta de estrutura para descanso e insegurança afastam caminhoneiros das estradas brasileiras

Pai e Filho. Marco Antonio segue os passos do pai Edgar que optaria por outra profissão se pudesse voltar atrás
truckpecas.com.br
Localizada pelo Google Maps do computador de bordo, uma obra no Saco dos Limões, em Florianópolis, é o destino de Anério Mariotti, 46, com a carreta Volvo, preta, carregada com 25 toneladas de vergalhões. É a última etapa da viagem de ida e volta a Recife(PE), com escala no Rio de Janeiro, antes de subir a BR-282 para, depois de 25 dias, reencontrar a família e ter uma semana de descanso em Alfredo Wagner, na região serrana da Grande Florianópolis.
Antes, pretende passar no mercado e comprar uma bola de futebol para o menino de seis anos, que, para decepção do pai, também adora caminhão. “Espero que ele tenha outra paixão de infância, e escolha outra profissão. A estrada é muito sofrida”, explica. Como o futuro com a bola é incerto, Mariotti economiza e pensa em um computador como próximo presente do caçula.
“Minha vontade é que ele estude, cada vez mais, e tenha futuro na vida”, completa o motorista, há 19 anos na estrada. Filho de agricultores, Mariotti frequentou a escola somente até o 5º ano do ensino fundamental. Mas não tem dificuldades para se adaptar às inovações tecnológicas na cabine da carreta. “Hoje em dia, é só ligar, acelerar e frear”, diz, sentado ao volante do caminhão de 12 marchas, câmbio hidramático, piloto automático, direção hidráulica, computador e ar condicionado.
Lá dentro, o conforto de uma cama de casal e televisão tela plana. Tina com água, geladeira, despensa com mantimentos e fogareiro são acoplados à lateral da carroceria, onde faz café, esquenta água do chimarrão e prepara refeições rápidas.
É quando está parado que Mariotti sente ainda mais falta da família e as dificuldades da estrada. Não ver os filhos crescer o deixa de semblante fechado e traz à memória o casamento da filha mais velha, de 22 anos. “Uma semana antes, eu estava em Manaus. Pensei até em pegar um avião, mas consegui chegar a tempo de vê-la entrar na igreja”, sorri.
Sem pontos de parada, aumenta a saudade
Longe de casa e diante do conforto da cabine, a falta de locais adequados para descansar é o maior dilema deles. Os poucos pontos de parada disponíveis são os pátios de postos de combustíveis, onde os motoristas se concentram como forma de segurança coletiva, fazem as refeições e tomam banhos rápidos. A taxa para quem não é cliente varia de R$ 20 a R$ 50 por pernoite.
Filho de agricultores, Anério Mariotii gosta de caminhões desde criança, mas quer o filho longe da estrada
Filho de agricultores, Anério Mariotii gosta de caminhões desde criança, mas quer o filho longe da estrada
Na Grande Florianópolis, o posto Catarinão, no KM 216 da BR-101, em Palhoça, é um deles. É lá que Marino Ferreira, 55, Jaime Weyh, 39, e Edgar de Souza, 52, e o filho Antônio Marcos, 33, costumam reencontrar amigos com quem cruzarão novamente só depois de cinco ou seis meses em outro ponto qualquer do Brasil. Em comum, além da paixão de infância pelos caminhões, a baixa escolaridade e a decepção pelo descaso do governo com quem trabalha na estrada.
Estrangeiros selecionados para ocupar vagas
Sem mão de obra qualificada, transportadoras brasileiras vão cada vez mais longe atrás de caminhoneiros. O Sindicato das Empresas de Transportes de Carga do Paraná, por exemplo, recruta, seleciona e dá treinamento a estrangeiros oriundos da Colômbia. No Rio Grande do Sul, migrantes haitianos habilitados são opção para reduzir o déficit. Levantamento da NTC&Logística (Associação Nacional do Transporte de Carga e Logística) aponta que faltam 100 mil profissionais em todo o país. Em Santa Catarina, há vagas para 1.500 profissionais.
O presidente da Fetrancesc (Federação das Empresas de Transporte de Cargas do Estado de Santa Catarina), Pedro de Oliveira Lopes, 70, acrescenta outro aspecto para explicar a debandada: novas tecnologias acopladas à frota. A modernização facilita a operacionalidade e transforma os caminhões em verdadeiros automóveis, confortáveis e seguros. “Mas exige a formação especializada, e isso leva muito tempo”, diz.
Os caminhões de hoje, grandes ou pequenos, são equipados com direção hidráulica, sistema de câmbio automático, freios de última geração e computador de bordo. São novidades que exigem motoristas cada vez mais especializados, segundo Lopes, embora a realidade na estrada indique o contrário.
Neste período de transição tecnológica, Pedro Lopes destaca que motoristas aposentados voltam ao mercado sem atualização e qualificação. O empresário reconhece que crescimento e modernização da frota, aposentadorias e falta de estrutura para paradas nas estradas acentuam a falta mão de obra especializada. “A procura de jovens cresce, mas em proporção insuficiente para compensar a defasagem da última década”, confirma.
Formação profissional é demorada
Em todo o Brasil, o sistema Sest/Senat (Serviço Social do Transporte/Serviço Nacional de Aprendizagem do Transporte) tem 150 mil inscritos para formação motoristas. Mais de 45 mil estão na faixa etária entre 18 a 26 anos e pelo menos 62% são mulheres. “Com caminhões mais leves e confortáveis e empresas de logística para carregar e descarregar, elas começam a ocupar espaço também no transporte de cargas”, diz Lopes.
O resultado nas estradas, no entanto, não é para agora. Para obter habilitação da categoria “C” (caminhões de pequeno porte), é preciso primeiro ter a carteira “B” ( carros) por um ano. Para dirigir ônibus e caminhões de grande porte (categorias “D” e “E”, respectivamente), o período de experiência ao volante de automóveis é de no mínimo dois anos.
A mudança cultural dos últimos 20 anos, segundo o presidente do Movimento União Brasil Caminhoneiro, Nélio Botelho, é outro fator importante da debandada. Antigamente, ser motorista era ter uma atividade aventureira, romântica. Hoje, a imagem do profissional está desgastada e desvalorizada. “O jovem de hoje quer cursar faculdade para ter uma qualidade de vida melhor”, afirma.
Estudo da NTC & Logística mostra que após a vigência da “lei do motorista”, o percentual médio de aumento sobre os custos das operações de carga lotação ou grandes massas foi de 29%. A queda de produtividade foi de 37%. Mesmo assim, para o presidente Flávio Benatti, o cenário é positivo. “A lei pode valorizar o caminhoneiro e gerar mais interesse pela profissão”, prega.
Sacrifício não compensa
Caminhoneiros (1)
Marino Ferreira concorda que falta de pontos de parada é o maior problema das estradas brasileiras
O lado romântico ficou para trás. Mais do que a saudade da família, do medo de acidentes e dos assaltos, para o empresário Pedro Zapelini, 62, o que afasta os caminhoneiros da profissão é a falta de infraestrutura nas estradas brasileiras. Dono de frota com 150 caminhões, entre 8% e 10% deles permanecem parados no pátio da empresa, em Tubarão, Sul do Estado de SC, por falta de motoristas.
“É muito estressante”, diz Zapelini. Estradas ruins, trânsito parado na entrada das grandes cidades, roubos de cargas e caminhões são situações que desestimulam os mais jovens. “Não compensa tanto sacrifício de ficar vários dias longe da família”, acrescenta. A queda na oferta de mão de obra, de acordo com levantamentos da empresa dele, ocorre há uma década e vem se agravando nos dois últimos anos.
O empresário catarinense critica a falta de incentivo do governo à profissão. “A frota aumenta a cada ano, mas a infraestrutura é praticamente a mesma de 30 anos atrás”, diz. Bem sucedido nos negócios da família, depois de começar com o velho caminhão Mercedes-Benz ,deixado pelo pai, e rodar 12 anos Brasil afora, Zapelini não recomenda a profissão para ninguém. Muito menos para os filhos.
“Está cada vez mais difícil trabalhar. São muitos deveres e poucos direitos, não temos retorno dos impostos que pagamos”, reclama. Há 40 anos no ramo, Zapelini conhece como pouco as estradas brasileiras. E aponta o trecho entre Tubarão, cidade sede da empresa, no Sul de Santa Catarina, a São Paulo como um dos mais problemáticos da malha viária nacionais.
“Não há pontos de parada adequados para descanso. Ninguém quer rodar oito horas, e não ter onde parar com segurança”, diz. Aos domingos à noite são comuns os congestionamentos de acesso a São Paulo e filas de caminhões parados no acostamento da rodovia Régis Bittencourt, a BR-116.
A BR-101, por onde trafega desde os anos 1970, é outro exemplo citado por Zapelini de estrada sem estrutura. “O percentual de caminhões quadriplicou desde aquela época, e só agora foi duplicada”, compara.
Crise atinge campo e viagens para Mercosul
A falta de motoristas não é privilégio das cidades do litoral. No Oeste de Santa Catarina, é notada principalmente nos períodos de escoamento da safra de grãos – milho, soja, feijão, arroz e trigo. Outro gargalo é o setor transporte internacional de carnes congeladas para países vizinhos como Argentina, Chile, Bolívia, Colômbia e Paraguai.
A distância e o longo tempo na estrada é o que afasta os profissionais das viagens para o Mercosul. Esta é a explicação do presidente do Sindicato das Empresas de Transporte de Chapecó e vice-presidente regional da Fetrancesc, Valmor Zanella, 55, que na hora de contratar prioriza mão de obra da região, mas ultimamente tem recorrido aos Estados vizinhos – Paraná e Rio Grande do Sul.
“É problema nacional, que também ocorre aqui de forma localizada. Principalmente nos 15 dias de apuro da safra”, argumenta Zanella. A falta de segurança e de infraestrutura para repouso, segundo ele, é o grande problema. “Quem é vítima de roubo, por exemplo, nunca mais volta”, completa. Dono de frota com 40 caminhões, Zanella trabalhou cinco anos na estrada. “De lá para cá, só melhoraram as estradas com pedágio. O resto é tudo igual a antes”, constata.
Se o estresse da estrada e à distância da família afastam trabalhadores do volante, alcoolismo e dependência química são fatores que deixam os patrões com o pé atrás na hora da contratação. “Há problemas com bebidas, drogas e rebites. É uma preocupação a mais, não dá para deixar um caminhão destes, totalmente tecnológico, nas mãos de quem não se confia”, diz o empresário Pedro Zapelini, de Tubarão.
Fonte: Notícias do Dia Texto de Edson Rosa e fotos de Daniel Queiroz
Publicado em 26/05/2014 no Blog do Caminhoneiro.

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