Motorista Comprometido

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terça-feira, 5 de maio de 2015

Com falta de motoristas, estrangeiros e mulheres assumem volante de caminhões


Solange Emmendorfer, motorista da Braspress, empresa que passou a contratar mais mulheres para driblar a falta de mão de obra: “Competência não tem sexo”
A falta de motoristas de caminhão no segmento de transporte de carga e logística tem levado cadavez mais empresas do setor a contratar profissionais estrangeiros e, em alguns casos, mulheres para realizar as entregas. Mesmo com a atividade econômica fraca e a redução da demanda, uma das experiências recentes mais bem-sucedidas nesse sentido – a contratação de caminhoneiros colombianos no Paraná – será replicada em São Paulo ainda neste ano.
Em 2014, segundo o Sindicato das Empresas de Transportes de Cargas no Estado do Paraná (Setcepar), 25 motoristas colombianos foram contratados e outros 300 cadastraram os currículos na embaixada do Brasil no país vizinho. “Como a atividade econômica está mais retraída, a demanda caiu um pouco, mas até ano retrasado a falta de mão de obra estava aguda”, afirma Gilberto Cantú, presidente da entidade.
Com as despesas da viagem custeadas pelas empresas contratantes, os profissionais passam por uma semana de treinamento, para testar os veículos e aprender sobre as leis de trânsito brasileiras, e acompanham um caminhoneiro brasileiro na estrada por outros 20 dias.
A Associação Nacional de Transporte de Cargas e Logística (NTC) estima que faltem atualmente no setor de transporte e logística 106 mil motoristas. Lauro Valdivia, assessor técnico da entidade, afirma que o déficit, longe de ser exclusividade do Brasil, é enfrentado também em boa parte dos países desenvolvidos, onde os jovens que entram no mercado de trabalho preferem procurar vagas que lhes permitam dormir em casa todos os dias, longe da estrada.
A escolha da Colômbia para o programa, segundo Cantú, foi, na verdade, uma oportunidade. A expansão da rede de oleodutos para o transporte de petróleo no país nos últimos anos acabou desempregando muitos motoristas, que agora buscam trabalho nos países vizinhos. “É uma contratação interessante. Os colombianos costumam ter escolaridade maior que os caminhoneiros brasileiros”, afirma Cantú.
O motorista Renato Ballesteros, natural de Bogotá, está no Brasil há um ano e há dois meses trouxe a mulher e os dois filhos para viver com ele em Curitiba, no Paraná. Com 15 anos de experiência na Colômbia, fazendo transporte rodoviário de petróleo, ele diz estar satisfeito com o trabalho no Brasil. O salário é semelhante, afirma, mas, longe da Cordilheiras dos Andes, as estradas brasileiras são mais fáceis de vencer.
Responsável pela rota Ponta Grossa-Goiânia da transportadora Diamante, Ballesteros diz reconhecer como justas as demandas feitas pelo caminhoneiros que têm protagonizado paralisações em todo o país nos últimos três meses. “Esse tipo de protesto costuma ser muito mais violento na Colômbia”, comenta.
Os bloqueios em rodovias estão sendo realizados por motoristas autônomos – não, portanto, por aqueles que compõem os quadros das empresas de logística.
Após os protestos de fevereiro e março, a categoria conseguiu a aprovação da chamada Lei do Caminhoneiro, que inclui o perdão de multas expedidas nos últimos dois anos e a ampliação dos pontos de descanso. No último dia 23, os caminhoneiros fizeram novas paralisações, pedindo uma tabela fixa para os preços de frete, que consideram atualmente muito baixo. Ainda sem acordo com o governo, a última reunião com o ministério dos Transportes aconteceu na quarta-feira, dia 29.
Em São Paulo, o sindicato das empresas de transporte (Setcesp) espera iniciar as contratações de estrangeiros ainda neste ano. “Já conversamos com o Detran daqui, que deve liberar uma licença para conduzir provisória de 6 meses, para que eles já possam tirar a carteira de trabalho imediatamente. Queremos estar com tudo pronto em no máximo 90 dias”, diz Manoel Sousa Lima, presidente da entidade, que tem 1.340 empresas associadas.
Para enfrentar a falta de mão de obra no setor, há cerca de quatro anos a transportadora Braspress chegou a se aproximar da embaixada do Peru no Brasil, pedindo-lhe ajuda para contratar profissionais peruanos. “Chegamos a colocar um quiosque de recrutamento na estação Belém do metrô, onde eles costumam se reunir”, conta Luiz Carlos Lopes, diretor de operações da empresa.
Segundo ele, entretanto, os estrangeiros não tinham experiência na área de transporte e, depois de alguns meses, pediram demissão. Foi aí que a empresa resolveu apostar em uma prática que vinha ensaiando desde 1999 – a contratação de motoristas mulheres. Em anos anteriores, a participação delas nos quadros já chegou a corresponder a 56% do total de funcionários, diz Lopes. Atualmente, são 320 dos 820 motoristas que têm contrato com a empresa.
As admissões, segundo o diretor, começaram pelo marketing – a Braspress faz muitas entregas urbanas, de empresas do setor têxtil a shopping centers, por exemplo. “Demos um tiro em uma coisa e acabamos acertando outra”, diz.
A motorista Solange Emmendorfer está há 13 anos na companhia. Entrou com 36 anos, quando se divorciou e, sem nenhum registro na carteira de trabalho, se viu obrigada a procurar emprego para se sustentar. Depois do treinamento, passou a dirigir os veículos menores e, hoje, faz com um caminhão grande a rota diária entre São Paulo e Campinas. Ela encoraja as amigas a enviar os currículos e dribla o preconceito de gênero com uma frase repetida com frequência nos corredores da empresa: “Competência não tem sexo”.
Fonte: Valor Econômico
Publicado em 05/05/2015 no Blog do Caminhoneiro.

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